SÍNDROME DAS PERNAS INQUIETAS


16/07/2008

Quem já passou uma noite em claro, tentando dormir, sabe o quanto é difícil encarar a vida sem as horas necessárias de repouso. À luz do sol, o sono aparece e o cansaço, a apatia e a irritabilidade tomam conta. A insônia pode ser provocada por diversos fatores. Um deles é pouco conhecido e responde por um nome curioso: Síndrome da Pernas Inquietas (SPI). Segundo estimativas, 5% da população mundial sofre deste mal, caracterizado por uma incômoda sensação nas pernas e braços (leia box) que obriga a pessoa a fazer movimentos e a esticar os membros de tempos em tempos, prejudicando assim a qualidade do sono. “Os sintomas vêm quando a pessoa está em repouso no sofá ou na cama. Por isso a doença afeta o sono”, afirma a neurologista Márcia Assis, especializada em distúrbios do sono. Embora a síndrome tenha sido descrita pela primeira vez em 1947, pelo neurologista sueco Karl-Axel Ekbom, ela foi por muito tempo ignorada por grande parte da classe médica e só agora os critérios para o diagnóstico – basicamente clínicos – começam a ser mais conhecidos. Muitos pacientes sofrem durante anos antes de descobrir a verdadeira causa do seu desconforto. A auxiliar de cartório Erondina Carraro Bernartt, 58 anos, perdeu a conta de quantos consultórios médicos percorreu durante os cinco anos em que sofreu de uma terrível dor nos joelhos. De início, procurou um reumatologista. Depois vieram um especialista em joelho, outro em coluna e uma série de exames. Mas niguém descobria qual era a origem daquele incômodo. A distância de um centro médico mais desenvolvido – ela mora em Nova Aurora, Oeste do estado – também não ajudou. Quando veio para a capital consultar-se com um médico vascular, ele percebeu que os sintomas correspondiam aos descritos por pacientes com Síndrome das Pernas Inquietas. E recomendou que ela procurasse um neurologista. “Ficava noites e noites sem dormir. No dia seguinte estava deprimida e mal-humorada. Já não agüentava mais, só pedia a Deus um médico”, conta Erondina. A peregrinação cessou há um ano, quando Erondina começou o tratamento com medicamentos agonistas dopaminérgicos, substâncias que aumentam a quantidade do neurotransmissor dopamina, envolvido nos circuitos motores do sistema nervoso central. “Foi um alívio, senti o resultado na primeira noite”, conta. A SPI é uma alteração química provocada pela deficiência de dopamina. Os mais suscetíveis a ela são idosos, mulheres grávidas e pessoas que sofrem de anemia, pois o ferro que falta no sangue dos anêmicos participa da formação da dopamina. “Observamos que a doença tem maior prevalência em caucasianos (pessoas de pele branca). Ela tem causa familiar (genética), mas há medicamentos, como alguns antidepressivos, que podem ocasioná-la”, explica o neurologista Hélio Teive, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e especialista em distúrbios do movimento. O médico conta que, até um tempo atrás, o conhecimento da SPI estava circunscrito aos consultórios dos neurologistas. A doença só entrou no currículo do curso de Medicina da UFPR no ano passado. “Antigamente apenas os especialistas dominavam os critérios para diagnosticar a doença”, diz o médico que, junto com a neurologista Márcia Assis, representou o Paraná no Consenso Brasileiro da Síndrome das Pernas Inquietas baseado em critérios internacionais. Além dos remédios, pessoas com Síndrome das Pernas Inquietas devem incluir na rotina alguns cuidados básicos para não desencadear crises da doença. Entre elas, praticar atividades como ioga, pilates, caminhadas e alongamento; tomar banhos mornos, fazer massagens e evitar viagens longas – ou longos períodos parados –, nos horários em que os sintomas são mais pronunciados. Causas Conforme dados da Associação Brasileira da Síndrome das Pernas Inquietas, a doença tem uma forte influência genética. Essa forma de SPI é conhecida como primária ou familiar. Mas a síndrome também pode ser resultante de condições secundárias. Perto de 15% das gestantes desenvolvem SPI. Geralmente, os sintomas desaparecem depois do parto. Deficiência de ferro no sangue também é associada aos sintomas, assim como doenças crônicas como neuropatia e problemas renais. Estudos recentes apontam para a ligação entre SPI e Transtornos de Hiperatividade e Déficit de Atenção (TDAH). “O diagnóstico em crianças é difícil, geralmente é baseado no histórico familiar”, diz a neurologista Márcia Assis. Ainda segundo a ABSPI, quase 25% dos pacientes com SPI têm os sintomas causados ou agravados pela utilização de medicamentos. Essas drogas incluem remédios usados para tratar pressão alta e problemas do coração, medicamentos anti-náusea, alguns medicamentos para gripes e alergias, tranqüilizantes, fenitoína e antidepressivos. Cafeína e álcool podem piorar os sintomas. Diagnóstico Segundo o Consenso Brasileiro da Síndrome das Pernas Inquietas, são quatro os critérios mínimos para o diagnóstico da doença. - Necessidade de mover as pernas e os braços, geralmente por sensação de desconforto, formigamento, dormência, dor; - Inquietude que gera a necessidade de esfregar uma perna na outra ou de caminhar; - Os sintomas pioram ou estão presentes somente em repouso e são temporariamente aliviados por movimento ou atividade; - Esses sinais pioram ao anoitecer ou na hora de dormir



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