Remédios - Quando e como tomar?


23/10/2014

Às vezes, não basta tomar – mas tomar na hora certa, porque cada doença tem um ritmo biológico que precisa ser adaptado à ação dos medicamentos, a fim de que estes produzam seu melhor efeito. Muitas doenças, sobretudo as crônicas, mas também processos infecciosos, exigem disciplina na tomada dos medicamentos. Aliás, já existe um ramo da ciência que estuda especificamente essa interação entre medicamentos, o organismo humano e o relógio, para determinar o momento ideal, ao longo do dia, para o paciente fazer uso de seus remédios. É a cronofarmacologia, que começa a ter efeitos práticos: alguns remédios já trazem na bula recomendações sobre o melhor horário para ingeri-los. Uma das mais ativas pesquisadoras brasileiras nessa área é a Dra. Regina Pekelmann Markus, professora titular do Departamento de Fisiologia da USP – que explicou para a Revista ABCFARMA o funcionamento dessa espécie de relógio farmacêutico que todos devem ajustar para obter os melhores resultados terapêuticos

A cronofarmacologia estuda a influência da hora do dia e dos ritmos biológicos sobre qualquer coisa que seja exógena, ou seja, externa ao corpo. Isso inclui medicamentos e substâncias tóxicas. A professora Regina explica que cada doença tem um ritmo próprio que pode interferir na eficiência de medicamentos. Ao se ajustar os dois relógios, o da ação farmacológica e o do comportamento metabólico da doença, não apenas se obtém mais eficiência terapêutica como -- e esse é um dos principais objetivos das atuais pesquisas cronofarmacológicas – se pode minimizar a toxicidade e os efeitos colaterais, reduzindo as doses caso seja adotado o horário apropriado. Em outras palavras, seguir os princípios da cronofarmacologia permite ao usuário potencializar a ação terapêutica de um medicamento – com a conseqüente redução da dose. Isso seria especialmente interessante nos quimioterápicos usados contra o câncer. As pesquisas da cronofarmacologia ainda têm muito a evoluir, mas já se estabeleceram algumas situações práticas.

Melatonina: o hormônio do tempo

A professora Regina faz um parêntesis para falar do hormônio que mais tem a ver com os ritmos internos dos seres vivos: a melatonina, que no homem é produzida pela glândula pineal. Entre todas as variáveis da Terra que regulam os ciclos do organismo, sem dúvida a mais influente é a alternância claro-escuro. “Temos um relógio 24 horas – o ciclo circadiano. Nós ajustamos isso, todo dia, ao ciclo da terra. Para fazer isso, homens e todos os seres vivos, incluindo as plantas, produzem o mesmo hormônio – a melatonina. Na realidade, a melatonina é um protetor – não deixa que células do sangue invadam os tecidos. Pois bem: a melatonina só é produzida no escuro. Ela abre as portas do sono no caso do homem. E abre as portas da vigília no caso dos roedores, que têm hábitos noturnos. Em algumas pessoas, falta melatonina para dormir – e nesses casos, em muitos países, ela é usada como remédio coadjuvante para tratamento de insônia. A melatonina ainda tem um longo período de estudos pela frente – talvez tenha um potencial terapêutico ainda desconhecido hoje. Uma das perspectivas da melatotina é que, ministrada à noite em certos pacientes, possa reduzir as doses reco

mendadas de certos quimioterápicos.

Hipertensão, hipotireodismo: quando tomar os remédios

Mas a cronofarmacologia não é só melatonina. Todos os hormônios humanos são liberados num determinado ritmo. Como os da tireoide. Eles são mais necessários ao acordar, ato que exige um fluxo de energia, depois de sete ou oito horas sob baixo metabolismo. São os hormônios da tireoide que nos dão essa energia matinal, renovada todos os dias. Por isso, pessoas que têm hipotireodismo e precisam tomar hormônio para complementar a baixa produção devem ingeri-lo de manhã, de preferência antes de levantar da cama. E em jejum, por um problema de absorção. Já no caso dos anti-hipertensivos, ocorre o oposto. Um dos segredos de se manter a pressão arterial em limites saudáveis é, além de conservar as medidas máxima e mínima em parâmetros adequados, não deixar que uma se aproxime muito da outra. Ter uma pressão mínima “colada” à máxima pode afetar perigosamente a circulação. Ocorre que muitos anti-hipertensivos baixam mais a pressão máxima do que a mínima, estreitando a diferença. Para se proteger disso, há vários trabalhos mostrando que o ideal é tomar anti-hipertensivos à noite, antes de dormir – o que mantém um diferencial adequado entre as medidas. A máxima pode até subir de manhã, mas a mínima vai ficar embaixo, em nível seguro.

Antibióticos: pontualidade britânica

Quando se fala em horário, diz a Dra. Regina, temos também de lembrar de remédios que precisam manter uma concentração constante no sangue para fazer seu melhor efeito. Como os antibióticos – que, para isso, têm de ser ministrados a um número exato de horas. É um dos poucos remédios que exigem uma periodicidade rigorosa – mesmo que isso signifique acordar um filho à noite para tomar uma dose na madrugada. “No caso das infecções, estamos combatendo um invasor poderoso e precisamos manter as armas ligadas o tempo todo”. A professora ressalta também que o tempo de administração é muito importante. “Antibióticos não devem ser tomados apenas até a pessoa se sentir melhor, sem febre e bem disposta, mas pelo prazo de sete dias, sem interrupção. O prejuízo é enorme não só para o próprio paciente como para a humanidade. Quem não se trata adequadamente só deixa as bactérias mais fortes e a pessoa passa a ser um reservatório de doença – pior que ser um mero transmissor da infecção.” Outras doenças crônicas também têm seu reloginho cronofarmacológico. Na artrite, por exemplo, a dor maior é de manhã. Por isso, prevenindo esse pico de dor, os anti-inflamatórios devem ser tomados sempre à noite.

Os principais erros na hora de tomar um remédio

Não apenas a hora certa influencia na eficiência de um medicamento. O modo como se toma também pode afetar os padrões de cura e alívio. Segundo os farmacologistas, estes são os principais equívocos a serem evitados

Ingerir o comprimido com outros líquidos que não sejam água O líquido mais indicado para acompanhar a ingestão de todos os tipos de medicamentos é a água. Algumas medicações podem desencadear reações químicas indesejadas quando ingeridas com sucos, leite, refrigerantes, chás ou café. Um exemplo: a tetraciclina reage na presença de cálcio – não deve portanto ser ingerida com leite. Tomar com álcool também nem pensar. O álcool pode tanto potencializar quanto neutralizar os efeitos de um medicamento.

Ingerir o comprimido sem beber água Assim como não é recomendada a ingestão de medicamentos com outros líquidos que não sejam água, tomá-lo a seco também pode trazer malefícios, pois existe o risco de a medicação ficar parcialmente retida no esôfago, podendo haver irritação na mucosa em que o comprimido se prendeu. Além disso, uma parte da dose da medicação é perdida, já que passa a ser absorvida pelas células locais enquanto está retida. Um caso dramático é o alendronato, usado contra osteoporose -- retido no esôfago, pode até mesmo perfurar o órgão.

Só ingerir o conteúdo da cápsula Pode parecer estranho, mas muitas pessoas costumam abrir a cápsula do medicamento e ingerir apenas o pó, para engolir melhor. Essas cápsulas são concebidas justamente com a função de proteger a mucosa da boca e do esôfago do contato com a medicação e garantir que a substância ativa aja de forma lenta, garantindo sua eficácia – daí a barreira da cápsula.

Triturar o comprimido para facilitar a digestão Também com a justificativa de facilitar a deglutição, é comum as pessoas triturarem o comprido ou cortá-lo ao meio. Segundo as especialistas, os únicos comprimidos que podem ser cortados ao meio são os que possuem uma linha no meio, desenhada inclusive para facilitar o corte. Os inteiriços devem ser tomados como vieram na cartela – ou serão absorvidos mais rápidos do que deveriam, podendo levar a uma intoxicação. Pessoas que têm uma dificuldade natural para engolir o comprimido inteiro devem checar as formulações alternativas com seu médico.

Ingerir “a seco” o medicamento em gotas Medicações em gotas também são mais bem absorvidas quando diluídas em água, em vez de pingadas direto na língua ou dadas em colher. E como geralmente são prescrições pediátricas, essas já são fabricadas com sabor e aroma diferentes para facilitar a ingestão pelas crianças.

 

 



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