PACIENTES DESCONHECEM MAL NA CÓRNEA


11/07/2008

No Dia da Saúde Ocular, celebrado hoje, especialistas chamam a atenção para um problema na vista que passa desapercebido pela maioria dos pacientes por falta de conhecimento. O ceratocone, também conhecido como córnea cônica, atinge 2,5% da população brasileira e tende a evoluir para uma perda total da visão, por isso a importância do acompanhamento médico. Ceratocone é uma doença em que a forma da córnea, que geralmente é redonda, torna-se distorcida, desenvolvendo uma protuberância no formato de cone que danifica a visão. A progressão da doença depende da idade do paciente no momento em que ela teve início: quanto mais jovem, mais rápida a evolução. – Por volta dos 16 anos, a pessoa começa a apresentar uma fragilidade localizada das fibras de colágeno da córnea, provocando a deformação. Geralmente acomete os dois olhos, em níveis diferentes – explica Renato Fernandes, especialista em cirurgias de catarata e de córnea da Clínica Cirurgia Ocular Tijuca e membro da Sociedade Brasileira de Oftalmologia. O ceratocone ainda não tem causa identificada, mas é uma condição herdada e, às vezes, salta gerações. – Para o paciente, é difícil diferenciar os males da vista. Ele vê que está enxergando cada vez pior, mas não sabe identificar o que tem. Por isso é importante ir ao médico. Muitas pessoas ignoram, nunca ouviram falar, e ficam surpresas quando vêm ao consultório e descobrem que têm ceratocone – diz Miguel Padilha, diretor do departamento de oftalmologia do Colégio Brasileiro de Cirurgiões. O paciente jovem começa a desenvolver miopia ou astigmatismo, faz um óculos e seis meses depois já não está enxergando bem. Então, o oftalmologista repete o exame e vê que a miopia aumentou. Isto pode ser um sinal de ceratocone, geralmente associado a uma miopia e um astigmatismo de cerca de 5 graus: – Por volta dos 25 anos a visão já fica bem prejudicada, principalmente para longe. A pessoa vê tudo distorcido, e enxerga sombras e fantasmas em torno dos objetos. Outros sintomas podem incluir ardência, vista cansada e fotofobia. – Damos a orientação para que as crianças, sobretudo as com astigmatismo, não cocem demais o olho, porque é mais uma força num ponto frágil. Não tem muito como prevenir a doença, e sim acompanhar. Quem tem problema deve ir pelo menos uma vez ao ano ao médico – aconselha Fernandes. Tratamentos Inicialmente é indicado o uso de óculos, mas o paciente deve o quanto antes começar a usar lente de contato dura, segundo Padilha. À medida que a doença evolui, a progressão do afinamento e da protusão corneana causam um astigmatismo irregular elevado. Embora as lentes de contato permitam a melhora da visão, seu uso não influi na progressão do ceratocone. – A lente dura redesenha a córnea, achata o cone e faz com que ela tenha de novo a forma esférica por um tempo. É uma terapia paliativa – explica Padilha. Quando houver intolerância às lentes de contato ou quando as mesmas passarem a não funcionar mais, é indicado o implante de anel intracorneano. Trata-se de pequenos anéis colocados na base da córnea, que estabilizam a base do cone. Permite controlar a doença por muitos anos. O anel é perfeitamente tolerado pelo organismo – não há risco de rejeição. Se depois de um longo tempo a córnea continuar piorando e a visão caindo, a última alternativa é o transplante de córnea, para substituir a defeituosa por uma nova. – Enquanto a pessoa tiver boa parte da visão preservada, é importante adiar o transplante de córnea. Deixamos isso para último recurso, afinal, a nova córnea não dura para sempre e a cirurgia não é livre de riscos – pondera Padilha. Um novo tratamento, mais moderno, está sendo testado com uma terceira opção. O cross linking consiste no uso de um colírio com riboflavina, seguido de exposição a raios ultravioletas. – Não é cura, mas é um recurso que pode travar a evolução da doença ao fortalecer o colágeno, é bem promissor – conta Padilha. O diagnóstico é intuído por sinais clínicos e confirmado com uma topografia da córnea – fotografia mais nítida da superfície da córnea, que mapeia deformidades. Na esquiascopia – exame de rotina para ver o grau dos óculos – o médico pode também suspeitar que a pessoa é portadora de ceratocone por uma alteração na cor da pupila. Há ceratocones bem discretos, chamados frustros. Só exames muito apurados levam a sua descoberta. Às vezes a pessoa pode conviver a vida inteira com o mal sem grandes problemas.



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