Nova arma contra o envelhecimento


23/12/2014

Anti-inflamatório se mostra capaz de aumentar o tempo de vida de moscas-da-fruta e micro-organismos. Cientistas acreditam que ele combate efeitos do tempo sobre o corpo

 

Um dos remédios mais utilizados para combater problemas de saúde comuns, como febres e dores musculares, é também a mais nova esperança para frear o envelhecimento. Pesquisadores americanos conseguiram aumentar consideravelmente o tempo de vida de animais em laboratório com doses de anti-inflamatório. Os autores do estudo ainda não sabem ao certo por que o medicamento gerou o efeito benéfico, mas eles acreditam que, com os resultados alcançados, estão no caminho certo para desenvolver uma droga rejuvenescedora, que reduza os danos à saúde causados pelo tempo.

Segundo os autores, apesar de a substância, chamada ibuprofeno, ser muito utilizada na medicina, ainda há poucos trabalhos que buscaram verificar seus efeitos sobre o envelhecimento celular. Os especialistas, então, decidiram tratar diferentes seres, como leveduras, vermes e moscas-da-fruta, com doses regulares e diárias do anti-inflamatório. O resultado? As espécies do teste passaram a viver mais tempo que semelhantes não tratados. Além disso, moscas e os vermes pareceram apresentar um melhor estado de saúde do que antes do tratamento.

“Quando tratamos as cobaias, observamos que elas viviam mais. Nas leveduras, por exemplo, notamos que a substância fazia com que as células se dividissem de forma mais lenta. Isso quer dizer que essa droga imita o efeito de muitas mutações genéticas pró-longevidade na levedura. Por conta disso pensamos que ele também pode fazer a levedura viver mais tempo”, destaca He Chong, pesquisadora do Instituto Buck de Pesquisa sobre o Envelhecimento e uma das autoras do estudo, publicado na revista Plos Genetics.

Ainda buscando respostas para esse resultado, a equipe levanta a hipótese de que o ibuprofeno estimule a produção de um importante aminoácido, ligado ao equilíbrio do metabolismo. “Suspeitamos que interfira na capacidade das células produzirem esse nutriente. Todas as células, (incluindo as humanas) precisam do aminoácido triptofano, obtido de formas diferentes em cada tipo de organismo. Os humanos o obtêm em dietas ricas, já as leveduras o importam do ambiente”, destaca He.

Samara Machado, professora da Faculdade de Farmácia da Universidade Católica de Brasília (UCB), explica a importância do triptofano. “Ele é crucial para diversos mecanismos do metabolismo. Nos humanos, ele está ligado, por exemplo, à produção de serotonina, que é importante na execução de tarefas neurológicas. É uma teoria inicial levantada por esses pesquisadores, mas é possível que essas vias metabólicas alteradas pelo triptofano possam ser a razão do sucesso do medicamento”, avalia a especialista, que não participou do estudo.

CAUTELA Os autores ressaltam, contudo, que, apesar dos resultados promissores, é muito cedo para afirmar que o ibuprofeno tenha realmente um efeito rejuvenescedor, especialmente em pessoas. “Como o nosso estudo não envolvia seres humanos, não é prudente afirmar qualquer coisa desse tipo. No entanto, um aspecto muito interessante do nosso trabalho é mostrar que existem drogas seguras que merecem ser pesquisadas mais a fundo”, pondera Chong. “Acreditamos que esses medicamentos usuais, utilizados para tratar doenças relacionadas com o envelhecimento, podem também ajudar a atrasar o próprio envelhecimento. Precisamos de mais pesquisas para examinar e compreender melhor esse benefício, antes que alguém possa dizer se eles podem ser aplicáveis a pessoas”, frisa a autora.

Para Clovis Chechinel, geriatra do Laboratório Exame de Brasília, o artigo mostra resultados interessantes, mas lembra que pesquisas que buscam formas de retardar o envelhecimento sempre exigem cautela. “Precisamos destacar que esse efeito só foi notado em animais e pode ter resultados diferentes em humanos. Isso deve ser ressaltado para evitar que as pessoas passem a consumir esses medicamentos em excesso”, destaca, lembrando os riscos que uma automedicação poderia trazer. “O uso de anti-inflamatório por idosos, em alguns casos, está ligado a complicações renais, riscos de sangramentos e outras situações adversas. Esse é mais um motivo pelo qual sempre recomendamos usar esse tipo de medicamento com parcimônia”, acrescenta.

Samara Machado, da UCB, acredita que uma das grandes vantagens da pesquisa é apontar novos possíveis usos para remédios populares. “Esse estudo precisa de mais etapas, até para conseguir ajustar a dose do medicamento para que ele não traga efeitos colaterais, por exemplo. No entanto, pesquisas nessa linha têm trazido grandes conquistas. Alguns trabalhos já apontaram a aspirina como um possível redutor de riscos de câncer. Mesmo que o ibuprofeno não seja usado em sua fórmula original, ele pode ter parte de sua composição utilizada para um novo remédio com foco no retardo do envelhecimento”, acredita a especialista.

 

 



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