LILLY TRAZ AO PAIS DROGA DE LAGARTO CONTRA DIABETES


03/06/2008

Transformar um recurso natural em medicamento é o sonho de quase todo pesquisador e porque não de boa parte da indústria farmacêutica. Além de praticamente ser sinônimo de campeã de vendas, uma droga como essa no portfólio aumenta o respeito do laboratório junto à comunidade científica e acaba também por colocar o descobridor na vanguarda do setor. Foi o que aconteceu com o médico John Eng e a americana Eli Lilly. Quase duas décadas atrás, Eng partiu em direção aos desertos do sudoeste dos Estados Unidos, onde vive o maior lagarto americano, o Monstro de Gila. E estudando o animal Eng e sua equipe descobriram que Gila possuía um hormônio similar ao hormônio digestivo humano GLP-1, fundamental no controle da quantidade de glicose no organismo e que está diretamente ligado ao desenvolvimento do diabetes tipo 2. Com essa informação debaixo do braço, o pesquisador e o laboratório sintetizaram o hormônio e desenvolveram o Byetta, um medicamento que promete retardar a chegada do paciente à insulina. Lançado nos Estados Unidos em 2005, o Byetta acaba de desembarcar no Brasil, com a promessa de repetir aqui o bom desempenho de lá de fora. "Sempre há uma demora no lançamento do produto em outros mercados, mas aqui no país houve também questões regulatórias, como a definição de preço", conta Antonio Alas, diretor de Marketing e Vendas da Lilly no Brasil, ao Valor. Mesmo não revelando valores, o executivo assegura que o remédio custa o dobro na Argentina em relação ao que será praticado no país. Hoje, a Lilly fatura no Brasil cerca de R$ 500 milhões por ano, sendo que o negócio diabetes representa algo como R$ 100 milhões. A estimativa, portanto, é que o Byetta represente pelo menos 20% das vendas da divisão no Brasil em um prazo de dois anos. Ou seja, tomando por base os números atuais, isso já significaria algo como R$ 20 milhões ou 4% da receita total do laboratório no país. De fato, a meta é ambiciosa. Só para se ter uma idéia, as vendas globais do Byetta representaram 3,6% do faturamento da Eli Lilly no mundo em 2007. Trocando em miúdos, o medicamento registrou uma receita de US$ 651 milhões no ano passado, enquanto que a companhia teve vendas mundiais de US$ 18 bilhões. Para este ano, a postura é não falar sobre perspectivas, mas a julgar pelo primeiro trimestre está claro que o desempenho promete. Entre janeiro e março de 2008, o Byetta faturou globalmente US$ 169 milhões, 15% maior que o registrado no mesmo período de 2007. Nesta cifra, os Estados Unidos, claro, tiveram presença marcante. Foram responsáveis por uma venda de US$ 158,5 milhões. Agora, para alcançar a meta dos 20% a Lilly no Brasil precisará contar com as compras governamentais, que por enquanto ainda estão longe de virarem realidade. Então, o único jeito de adquirir o produto, que será importado da operação americana, é por meio das farmácias. O interesse nas licitações do governo federal deriva das boas compras. Segundo números de consultorias do setor farmacêutico, a compra pública de insulina no país é perto de US$ 63 milhões por ano. Já o canal privado desse tipo de remédio tem um faturamento praticamente idêntico, US$ 64 milhões. O levantamento não inclui a venda de medicamentos orais contra o diabetes tipo 2, porque o foco do Byetta é justamente os pacientes que já não conseguem um bom retorno com o tratamento a base oral. Mas os antidiabéticos orais, de acordo com os dados do IMS Health, movimentam perto de R$ 371 milhões ou cerca de US$ 220 milhões. "O mercado privado de insulina no país tem crescido a uma taxa próxima dos 45% por ano. E apesar de um aumento no número de pacientes com diabetes tipo 2, boa parte dessa alta se deve ao câmbio", conta o diretor de marketing e vendas do laboratório americano no Brasil.



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