Entrando numa fria


07/05/2014

Todo ano a situação se repete. À medida que o outono avança e nos deixa às portas do inverno, com a chegada do frio, que favorece o contato entre pessoas em ambientes fechados, os pronto-socorros começam a ficar lotados de pessoas de todas as idades, com predominância de crianças e idosos, que apresentam diversas formas de sofrimento respiratório – de um simples resfriado, passando por uma gripe complicada e evoluindo para a asma e para a temível pneumonia, que ainda mata muitos brasileiros nessa época do ano. É possível evitar essas infecções? E como tratar os sintomas iniciais para que não se agravem?

Gripe X Resfriado

Parecidos, mas diferentes

Um espirro, uma dorzinha de garganta, nariz entupido, um pigarro, tosse. É gripe ou resfriado? Aqui as diferenças entre duas doenças infecciosas quase irmãs – mas com diferentes graus de mal-estar e ameaça à saúde

Com alguns sintomas similares, a gripe e o resfriado são doenças diferentes que podem causar desconforto e mal-estar em qualquer pessoa. Causadas por vírus diversos, elas podem acometer desde crianças até idosos. Mas há, de cara, uma diferença básica. "Do ponto de vista clínico, a gripe é uma doença bem mais importante. Ela pode ser grave e, eventualmente, fatal", comenta o pneumologista da Universidade Federal Paulista, Dr. Clystenes Soares Silva. Causada pelo vírus Influenza, a gripe é altamente contagiosa e ocorre, predominantemente, do final do outono ao começo da primavera. Diferentemente do resfriado, ela pode ter um início súbito e mais grave.

"A pessoa com gripe pode ter dor de garganta, febre, coriza e uma dor muscular intensa logo de cara", diz o Dr. Clystenes Silva. Segundo o médico, a doença pode deixar a vítima de molho por dias, com um quadro de mal-estar incompatível com as atividades normais do dia a dia. E, sobretudo em crianças, idosos e pacientes imunodeprimidos, pode produzir complicações temíveis, como a pneumonia, e infecções associadas que podem levar à morte, quando ela não é detida no começo dos sintomas.

Já o resfriado, causado, principalmente, pelo rinovírus, é uma infecção simples do trato respiratório superior (nariz e garganta), bem mais simples do que a gripe. Um resfriado dificilmente deixa a pessoa de cama", ressalta a pneumologista pediátrica Simone Santana Aguiar. Com sintomas aparentemente similares ao da gripe -- coriza, rouquidão, dores pelo corpo e de cabeça, febre e diminuição do olfato e da gustação – dificilmente vai além desse quadro e, na maior parte dos casos, não deixa o paciente acamado. Além de tudo, pode se repetir num curto espaço de tempo. "Pode-se ter de seis a sete resfriados ao ano, enquanto o normal é que se pegue gripe apenas uma vez no mesmo período", alerta Simone.

De fácil contaminação, tanto a gripe como o resfriado são comumente contraídos pelo ar, mas pode-se ainda transmitir a doença no contato direto com a pessoa doente – o que, sobretudo no caso de uma gripe já diagnosticada, recomenda cuidados de assepsia por parte da pessoa contaminada, em solidariedade às pessoas que convivem com ela.

Tratamento para gripes e resfriados

Sendo ambas doenças causadas por um vírus, nem gripe nem o resfriado têm tratamento específico. O que existem são medicamentos para os sintomas: antitérmicos, analgésicos, descongestionantes, além de uma boa alimentação e muita hidratação. Quando buscar ajuda para além desses sintomas? Ambos os processos são autolimitados. Normalmente, os vírus causadores têm ciclos de vida no organismo que não passam de cinco dias. Mas, após 72 horas, se o quando não indica melhoras, os médicos sugerem procurar ajuda especializada – visando evitar infecções mais graves, como pneumonias, otites e amigdalites. De acordo com a Dra. Simone, o melhor tratamento para a gripe é mesmo a vacinação. "A prevenção é o melhor tratamento que temos para doenças virais como a gripe. A vacina contra a gripe é eficaz e deve ser tomada anualmente", finaliza. Principais sintomas:

Gripe:

 - Calafrios

 - Dor de cabeça

 - Dores musculares

 - Febre

 - Irritação na garganta

 - Mal-estar

 - Nariz obstruído

 - Suor

 - Tosse seca

Resfriado:

 - Coriza

 - Diminuição de olfato e gustação

 - Dor de cabeça

 - Dores no corpo

 - Febre

 - Rouquidão

 - Voz "anasalada"

Pneumonia: o grande medo

Às vezes, começa por uma gripe – infecção pelo vírus influenza. Mas a queda de resistência provocada pela doença pode dar margem a uma pneumonia bacteriana. Em outras ocasiões, a pneumonia não é precedida por um quadro gripal – nesse caso, quase sempre é ela própria uma infecção viral. Seja como for, pneumonia preocupa. E o frio – explica a Dra. Maria Alenita de Oliveira, pneumologista do Hospital Beneficência Portuguesa – tem um papel estratégico no aumento da incidência da doença nesta época do ano. “Nas baixas temperaturas, as pessoas se concentram mais, com quadros virais mais frequentes e queda de resistência. Além disso, o frio faz exacerbar doenças pré-existentes, como a asma”. A pneumonia bacteriana clássica inclui febre, calafrios, dor no tórax e tosse com expectoração (catarro) amarelada ou esverdeada que pode ter um pouco de sangue misturado à secreção. A tosse pode ser seca no início. A respiração pode ficar mais curta e dolorosa e em torno dos lábios a coloração da pele pode ficar azulada, nos casos mais graves. Em idosos, confusão mental pode ser um sintoma frequente, além da piora do estado geral (fraqueza, perda do apetite e desânimo, por exemplo). Nas crianças, os sintomas podem ser vagos (diminuição do apetite, choro, febre). A Dra. Maria Alenita chama a atenção para esses dois grupos de risco em que a pneumonia, em geral, se apresenta sob formas mais graves. Diabéticos e alcoólatras também têm fatores de risco adicionais.

A pneumonia bacteriana deve ser tratada com antibióticos. Cada caso é avaliado individualmente e se definirá, além do tipo de antibiótico, se há ou não necessidade de internação. Segundo a Dra. Maria Alenita, a indicação de internação tem alguns parâmetros: falta de ar, os dois pulmões afetados, impacto sobre frequência cardíaca e hipertensão arterial, queda na oxigenação, gravidade das medidas do exame de sangue. Já nas pneumonias virais, o tratamento é só sintomático, de suporte. Visa melhorar as condições do organismo para que este combata a infecção.

SINAL DE ALERTA

“Um quadro gripal por mais de cinco ou sete dias com algum dos sintomas descritos deve levar o paciente a procurar um médico”

PREVENÇÃO? VACINE-SE CONTRA A GRIPE

Como a influenza viral, a gripe comum, costuma ser a porta de entrada das pneumonias, a vacina contra a gripe é a melhor prevenção: “Há mais mortalidade por pneumonia nos grupos não-vacinados”, resume a médica. Também há no mercado vacinas contra o pneumococo, bactéria gram-positiva responsável por pelo menos 30% das pneumonias. Essas vacinas devem ser feitas antes do início do inverno, preferencialmente.

Alvos preferenciais dessa vacinação: idosos, pessoas com o vírus do HIV, doença renal, alcoólatras ou outras condições que debilitem o sistema de defesa do organismo. Essa vacina tem a duração de aproximadamente cinco anos.

Doenças pulmonares

Mitos e verdades

Milhões de pessoas sofrem de doenças pulmonares crônicas, mas não sabem ao certo a diferença entre elas. O Dr. José Roberto Jardim, pneumologista da UNIFESP – Universidade do Estado de São Paulo, esclarece aqui

As doenças respiratórias crônicas são responsáveis por quatro milhões de mortes todos os anos no mundo. Pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) revela que 300 milhões de pessoas, entre crianças e idosos, sofrem de asma e 210 milhões de Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), que foi apontada como a 6ª causa de mortalidade no mundo e a 5ª no Brasil. Estima-se que até 2030 essa doença seja a quarta causa de mortes.

As doenças pulmonares crônicas oferecem riscos aos pacientes e apresentam como principais sintomas tosse, chiado no peito, indisposição, falta de ar e limitação gradual aos exercícios. Somente no Brasil, 15 milhões de pessoas são afetadas por asma e cinco milhões apresentam DPOC. “Doenças crônicas como essas acometem principalmente as vias aéreas, brônquios e pulmão e podem ter diferentes origens. Entre os pacientes com DPOC, por exemplo, cerca 90% são fumantes, ex-fumantes ou trabalham em ambientes com pó ou gases tóxicos. No caso da asma, a origem pode ser genética ou desencadeada por um agravante alérgico, infecção respiratória viral, variações climáticas e outros”, esclarece o Dr. José Roberto Jardim,

A progressão destas doenças crônicas está diretamente relacionada à dificuldade de diagnóstico preciso e precoce, que define o tratamento mais efetivo para cada tipo de enfermidade. Ainda há muitos equívocos e dúvidas sobre a asma, bronquite e a DPOC. As três patologias possuem convergências nos sintomas, nas causas e nos riscos oferecido aos pacientes. Por isso, é importante destacar a definição de cada uma delas, seus sintomas e tratamentos disponíveis atualmente.

Patologia Asma

O que é?

Doença caracterizada pela inflamação eosinofílica crônica das vias aéreas, desencadeada por alérgenos. Ela determina o seu estreitamento, causando dificuldade respiratória, e geralmente tem início na infância.

Sintomas:

 -Tosse seca

 - principalmente à noite

 -Chiado no peito

 -Respiração mais rápida

 -Falta de ar

 -Cansaço físico

 -Sensação de aperto ou dor no peito

Tratamento O foco do tratamento é a inflamação e a redução da exposição aos fatores desencadeantes para manter a asma sob controle e evitar as crises. Na terapia está recomendado o uso de anti-inflamatórios inalados associados ou não aos broncodilatadores.

Patologia

Traquebronquite

O que é?

Inflamação dos brônquios, causada geralmente por uma infecção viral, bacteriana ou reação alérgica a substâncias como fumo, pó, produtos químicos entre outros.

Sintomas:

 -Tosse barulhenta com catarro

 -Respiração difícil e rápidabr

 -Chiado no peito

 -Febre

Tratamento

Alguns médicos recomendam antibióticos, anti-inflamatórios sistêmicos e medicamentos para aliviar ou reduzir a tosse, tratando as via aéreas inflamadas e também febre.

Patologia

DPOC – Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica

O que é?

Normalmente subdiagnosticada, a DPOC ocorre quando há redução na capacidade respiratória provocada pela inalação de fumaça, especialmente do cigarro. A bronquite crônica e o enfisema são duas formas de DPOC. O principal fator de agravamento são as crises, que provocam internações e aumento da mortalidade.

Sintomas:

 -Falta de ar

 -Limitação gradual às atividades físicas

 -Produção excessiva de catarro

 -Tosse crônica -

Fraqueza no funcionamento do coração, com o aparecimento de inchaço nos pés e nas pernas

Tratamento:

A principal abordagem é a interrupção do tabagismo. As terapias medicamentosas são focadas principalmente no alívio dos sintomas, com o uso de broncodilatadores. Nos pacientes que apresentam crises frequentes está indicado o uso de anti-inflamatórios, como os corticoides e/ou os inibidores da PDE4.

ASMA E RINITE

DUAS FACES DA MESMA DOENÇA

A chegada do frio, o ar seco e a tendência em permanecer em locais fechados e pouco ventilados aumentam a incidência de doenças respiratórias - principalmente as complicações e crises em pacientes com asma e rinite alérgica. Mas qual é a relação entre essas duas doenças? Simples: a rinite alérgica é um importante fator de risco para a asma, uma vez que cerca de 80% dos pacientes asmáticos sofrem também de rinite alérgica e as pessoas que têm rinite alérgica apresentam três vezes mais chances de desenvolver asma. A Dra. Iara Nely Fiks, doutora em pneumologia pela Faculdade de Medicina da USP, membro da Sociedade Paulista de Medicina e membro da Sociedade Brasileira de Pneumologia, autora do livro Asma – Superando mitos e medos, explica aqui a melhor maneira de conviver com essas doenças com um mínimo de desconforto.

De acordo com o Sistema Único de Saúde (SUS), cerca de 350 mil brasileiros asmáticos são internados anualmente, o que coloca a asma entre as principais causas de internação no País. A gravidade da doença pode ser percebida por outro número ainda mais alarmante: seis pessoas morrem no Brasil, por dia, vítimas da asma, um reflexo da falta de tratamento preventivo e apropriado. Para evitar o agravamento destas doenças é preciso conscientizar o paciente e sua família de que a asma e a rinite são doenças crônicas, mas que podem ser controladas com um tratamento adequado e com o controle dos fatores externos que podem desencadear uma crise, como exposição à poeira, fumaça, perfumes e fatores alergênicos em geral. O tratamento para asma deve ser analisado individualmente, com medicamento adequado a cada paciente. Os pesquisadores definem asma e rinite como uma doença da via aérea única, isto é, o tratamento simultâneo da asma e rinite tem sido defendido como a estratégia ideal para prevenir as inflamações que começam no nariz, passando pela faringe, laringe, traquéia, seguindo até os brônquios. Daí a importância de se tratar a rinite.

AI, MEU NARIZ!

Segundo a Dra Iara, "o nariz tem a função de filtrar, aquecer e umidificar o ar que respiramos e que vai direto para o pulmão. Se este ciclo for prejudicado pela rinite, o oxigênio segue impuro para os pulmões, agravando o quadro de asma", explica a especialista, destacando a importância de um tratamento conjunto das duas doenças. É claro que o controle ambiental, medicamentos antialérgicos, corticóides tópicos nasais fazem parte da terapia sintomática – mas, para realmente controlar a doença, será preciso utilizar uma estratégia mais duradoura, tratando-se asma e rinite simultaneamente. E, segundo a Dra. Iara, já é possível tratar asma e rinite alérgica simultaneamente com uma classe de medicamentos chamados antileucotrienos. "Os antileucotrienos são capazes de inibir a reação inflamatória da asma, diminuindo bastante os efeitos colaterais do tratamento. Além disso, são os únicos antiinflamatórios das vias aéreas que não possuem cortisona.", afirma a pneumologista. Enquanto os broncodilatadores usados nas bombinhas ou inaladores são utilizados para aliviar os sintomas durante uma crise de asma, os antileucotrienos servem como medicação antiinflamatória para controle da doença no longo prazo. De acordo com especialistas, o problema de não utilizar um remédio que controle a inflamação da via aérea é que o paciente pode ter mais crises e elas podem ser mais graves.

A DRA. IARA RESPONDE

Como eu sei se tenho asma?

O diagnóstico é simples: se uma pessoa tem episódios repetidos de aperto no peito, tosse, chiado e falta de ar principalmente durante a noite, ela tem asma. O diagnóstico é ainda mais certo, se os sintomas são aliviados após o uso de broncodilatadores. Devemos excluir outras doenças com sintomas semelhantes. Muitas vezes, o paciente é pouco claro ao expressar seus sintomas. Quadros severos, com crises freqüentes, têm diagnóstico mais fácil. Nos casos menos típicos, cabe ao médico fazer as perguntas certas:

 1.Sofre falta de ar muitas vezes durante a semana?

 2. Essa falta de ar é acompanhada de chiado ou aperto no peito?

 3. Tem tosse persistente e seca durante a noite ou ao acordar?

 4. Já acordou no meio da noite com o peito apertado ou com falta de ar?

 5. Esses sintomas pioram ou começam a aparecer ao praticar atividade física?

 6. Fica mais cansado que os colegas ao praticar o mesmo exercício?

 7. Esses sintomas aparecem quando você entra em contato com substâncias irritantes – como poeira, cigarro, mofo, perfumes – ou com mudanças bruscas de temperatura?

 8. Suas gripes ou resfriados são mais demorados e com mais sintomas que os de seus amigos?

 9. Alterações emocionais – como riso, choro ou tensão – costumam desencadear esses sintomas?

 10. Quando sofre de falta de ar costuma usar algum medicamento para alívio?

Como sei que a asma está sob controle?

O controle da asma pode ser feito através dos sintomas. Pode também ser medido com o monitor de pico de fluxo.

A asma está bem controlada quando o paciente:

 • não apresenta sintomas durante o dia, realizando as atividades que deseja, principalmente as que exigem esforço físico;

 • não tem o sono interrompido pelos sintomas da asma;

 • não usa medicamentos de alívio;

 • tem pico de fluxo normal ou maior que 80% do esperado. [ topo]

Os dez mandamentos da asma

 1.A asma é uma doença crônica. Não tem cura, mas tem controle.

 2. A asma é muito comum. Muitos pacientes simplesmente não sabem ou não admitem que são asmáticos.

 3. A asma pode matar. A causa é o atraso no tratamento e não o excesso de medicação. As bombinhas não fazem mal ao coração. A bombinha ( spray ) é uma das maneiras de inalar o remédio e não um remédio em si. As bombinhas contêm remédios variados, cada um com sua função.

 4. Cortisona não faz mal quando usada com critério. É a única opção de tratamento nas crises severas. O tratamento correto economiza o uso da mesma, pois evita as crises.

 5. Em caso de crise, o melhor a fazer é se precaver: ir ao pronto-socorro e seguir as instruções combinadas com seu médico.

 6. Não interromper o tratamento de manutenção por conta própria. Sentir-se bem não significa que o medicamento pode ser abandonado. Discuta a programação com seu médico.

 7. Examinar no seu ambiente doméstico ou no trabalho se existe algo que possa ser mudado para melhorar sua asma. Nunca fume, o cigarro é um dos maiores desencadeantes evitáveis da asma.

 8. Cada medicamento deve ser inalado com uma técnica adequada. Certifique-se de estar aproveitando seu remédio completamente.

 9. Procure atividades que tragam qualidade de vida e prazer. Depois converse com seu médico sobre ajustar a dose e o horário da medicação para otimizar a atividade escolhida.

 10. Discuta regularmente seu tratamento com seu médico, tire todas as dúvidas e viva sem apreensões desnecessárias.



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