EFEITO DOMINÓ


11/07/2008

Costuma começar cedo. Para parecer mais velho, fazer tipo ou agradar aos amigos, o adolescente dribla aquele gosto de cinzeiro e disfarça os acessos de tosse até que ganha intimidade com o cigarro e passa a se sentir parte da turma. Com o tempo, a nicotina age, a dependência se instala e ele pode nem se lembrar de como tudo começou. Mas uma volta ao passado provavelmente vai mostrar que as primeiras tragadas foram dadas por influência alheia. Pois um novo estudo mostra que o mesmo raciocínio vale para parar de fumar: quando alguém abandona o vício, acaba contagiando outros fumantes em volta a largarem o cigarro. Publicado no "New England Journal of Medicine", o levantamento acompanhou, por 32 anos, 12.067 pessoas, que tinham vínculos -familiares, profissionais ou de amizade. Os pesquisadores, das universidades Harvard e da Califórnia, constataram que as pessoas abandonam o vício em grupos. Os laços mais fortes detectados foram os de marido e mulher: no caso de cônjuges, o fato de um deles parar diminui em 67% a chance de o outro continuar fumando. Entre dois amigos, a redução é de 43%. Entre irmãos, a influência é menor: 25%. Já entre colegas de trabalho, o que o estudo mostrou é que depende do tamanho da empresa: nas pequenas, o fato de um funcionário parar reduz em 34% a chance de o outro continuar fumando. Nas maiores, não houve essa associação. "O trabalho mostra que as decisões de parar de fumar não são tomadas só por indivíduos, mas por grupos inteiros", disse à Folha Nicholas Christakis, um dos autores do estudo. Segundo o pesquisador, a influência se dá de forma direta e indireta, entre pessoas que se conhecem e não se conhecem. No primeiro caso, é fácil perceber como isso acontece: uma pessoa pára de fumar e outro fumante próximo a ela se sente inspirado a parar também. "Chamamos de fenômeno da segunda onda. Quando a gente joga uma pedra na água, gera várias ondas e acerta uma superfície muito maior. Da mesma forma, quando se cria um ex-fumante, os outros percebem que ele conquistou algo novo e se estimulam a seguir o mesmo caminho", compara o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do PrevFumo (Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Segundo Santos, quanto mais próximo for o ex-fumante, maior costuma ser essa influência. "Dentro do núcleo familiar, é altíssima. Os pais estimulam muito os filhos e vice-versa. A relação entre marido e mulher é a mais forte", diz. A auxiliar administrativa Priscila Bezerra, 24, e o gerente de contas Gustavo Sachi, 27, ainda são namorados, mas o exemplo dele foi decisivo para que ela abandonasse o cigarro. Quando eles se conheceram, os dois fumavam. Há dois anos, Gustavo decidiu parar "de um dia para o outro". "Não traz benefício nenhum. O cheiro é ruim, você gasta dinheiro e faz mal para a saúde", justifica. Depois que ele conseguiu, Priscila conta que o namorado, sutilmente, mandava recados. "Ele não chegou a falar para eu parar, mas me ajudou a cortar. Passou a reclamar do cheiro, do gosto, de quando eu ia comprar cigarro. Eu não podia mais fumar no carro dele. Tomei aversão ao cheiro e parei", diz ela. Hoje, os dois comemoram. "Sinto mais o cheiro e o gosto da comida, meu condicionamento para os esportes aumentou", diz Gustavo. Segundo Priscila, além de ser bom para ela, parar ajudou no relacionamento. "Melhorou a sintonia entre nós dois." Sociedade não-fumante A pesquisa também mostrou o impacto indireto que uma pessoa que pára de fumar exerce sobre o grupo social de fumantes, mesmo que esses indivíduos não se conheçam. É como um efeito dominó: quanto mais gente abandona o vício, mais a sociedade vai se tornando hostil ao tabagismo, e isso desfavorece o hábito de fumar. Para Tânia Cavalcante, chefe da divisão de controle de tabagismo do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o tabagismo é uma doença "transmissível socialmente". "Numa sociedade em que todos fumam, a tendência é que esse comportamento cresça, ainda mais sendo uma dependência. O mesmo vale para o inverso." Segundo Sérgio Santos, o estudo de Harvard é o maior já feito e introduz um conceito novo: o da contagiosidade de parar de fumar. "Com a maior educação sobre o risco de fumar, diminui o número de fumantes, e cria-se um ambiente favorável a parar. É uma tendência em vários países. O fumante se sente acuado." Ao analisarem as relações nos círculos familiares e de amizades, os pesquisadores detectaram essa marginalização do fumante. O estudo mostra que, de 1971, início do levantamento, até 2000, último ano avaliado, eles foram se tornando mais periféricos nas redes sociais. Para o pneumologista pediátrico João Paulo Lotufo, responsável pelo Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo), a aprovação de leis antifumo em ambientes fechados em vários países contribui para desencorajar o tabagismo. "Mudou o enfoque por causa do tabagismo passivo. Se eu não fumo, estar perto de um fumante é ruim para mim. Não-fumantes que moram com fumantes têm 25% a mais de chance de terem infarto e câncer de pulmão", exemplifica. A secretária Lindaci Maria Soares, 48, conta que esse foi um dos motivos pelos quais ela resolveu parar, após quase 40 anos fumando. "Mesmo quem fumava há muitos anos está parando. Quase não há ambiente para o fumante. Só se pode ir a áreas abertas e, mesmo assim, as pessoas reclamam." Outro fator que pesou muito foi ter descoberto uma bronquite crônica. Ela diz que adorava fumar e que era uma "referência" para os outros fumantes. Inclusive para as três filhas, Josiene, 21, Luciene, 26, e Cristiene, 27, que fumam desde a adolescência. "Elas me vêem como exemplo até nesse vício horroroso. Se eu não parar, elas não param", diz. A mãe de Lindaci também fumava. Agora que ela decidiu parar, as três filhas também se animaram. A do meio, Luciene Soares Luiz, fumante desde os 12, acompanha a mãe ao programa especializado que ela freqüenta. "Só fui [ao programa] porque ela estava indo. Perdi minha avó para o cigarro e fiquei assustada quando vi que minha mãe está doente", conta. Tratamento Para Jônatas Reichert, presidente da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, outro fator que contribui para que parar de fumar se torne contagioso é o avanço nos tratamentos. "Antes, as pessoas não passavam muito a experiência para as outras porque, ao tentarem e falharem, sentiam-se impotentes. Hoje, com mais possibilidades de tratamento, aumentou o índice de sucesso e elas têm mais contato com casos bem-sucedidos", diz. Segundo Reichert, apenas 5% das pessoas conseguem abandonar o vício sozinhas. Ao sentir falta de ar e outros efeitos de 35 anos de dependência do cigarro, a consultora de treinamento Leila Cinelli Silveira, 56, decidiu procurar auxílio. Recebeu a indicação de adesivos de reposição de nicotina. Inspiradas no seu exemplo, a filha, a cunhada e a irmã também resolveram parar. "Até senti uma responsabilidade maior para não ter recaídas, pois sei que tenho três pessoas atrás de mim. Foi um incentivo", diz. Entre as estratégias inventadas por ela para driblar a abstinência, estava um "kit de sobrevivência" com cenouras, pepinos e ervas-doces cortados no tamanho de cigarros. Ela também guardou os R$ 3 diários que economizava deixando de comprar cigarros. "No fim do mês, comprei uma calça para me recompensar". Leila diz que se sente vitoriosa. "O fôlego é outro, a diferença na voz é incrível, a pele muda, os dentes ficam brancos, lisinhos. Achava que nunca iria conseguir, mas estou muito alegre comigo."



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