Comer pode ser assustador


27/08/2014

Usando imagens de impacto e técnica de memorização, pesquisadoras da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto conseguiram, em apenas 60 dias, mudar alimentação das mulheres que participaram do estudo

 

Carolina Braga – Estado de Minas

Comer um pouco de doce por dia, tipo um brigadeiro e três biscoitos doces recheados, poderá significar 20 quilos a mais ao fim de um ano

 

A máxima “uma imagem vale mais que mil palavras” pode até ser muito batida. Mas experimente transformar em imagens tudo aquilo que você come no dia a dia, para mensurar a quantidade de açúcar que ingere sem saber. Pode se assustar. Foi justamente com o objetivo de surpreender a população e alertá-la, sem muito blá-blá-blá, para a importância da atenção no que se come que a nutricionista de Ribeirão Preto Flávia Gonçalves Micali elaborou um instrumento capaz até de qualificar o apetite, usando imagens de impacto e técnica de memorização.

Foram 60 dias de experimento feito com um grupo de mulheres. O trabalho foi desenvolvido como dissertação de mestrado do curso de nutrição da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. “A ideia era tentar construir um instrumento para orientação alimentar e nutricional. Nosso critério foi produzir imagens que trouxessem informações sobre aspectos positivos e negativos, mas que também impactassem e facilitassem a memorização para quando a pessoa fosse comer tivesse a lembrança”, explica Flávia Micali.

Ao longo dos quatro anos de pesquisa, 12 meses foram exclusivos para a produção e validação das fotos que poderiam causar o efeito esperado. Composições com montanhas de banha ou sacos e mais sacos de açúcar empilhados realmente fazem pensar. Flávia trabalhou com quatro temas: “Vida doce, cuidando do açúcar”; “Comer bem fazendo as melhores escolhas”; “Comida gostosa com pouca gordura”, e “Cuido de mim com comida saudável”. Para cada um deles foram produzidas fotos específicas.

Como o objetivo do primeiro tema era mostrar a quantidade de açúcar de alguns doces e bebidas, principalmente industrializados, a ideia foi colocar lado a lado, por exemplo, duas latinhas de refrigerante e uma montanha de banha de porco. A mensagem é a seguinte: se a ingestão diária daquela quantidade exceder a necessidade energética do sujeito, ao fim de um ano ele poderá ganhar 11 quilos somente por causa da bebida. O mesmo foi feito com o suco industrializado. Segundo Flávia Micali, se uma pessoa tomar duas caixinhas de 250ml todos os dias, ao longo de um ano isso equivale ao consumo de 22 quilos de açúcar.

EMAGRECIMENTO “Existem estudos que demonstram o quanto imagens impactantes se convertem em fator de inibição. Tendo em vista o contexto da alimentação da população brasileira, decidimos fazer esse guia alimentar para tentar estimular um maior consumo de produtos in natura”, diz a autora. É por isso que no álbum de fotografias planejadas para impactar também há comparações sobre refeições completas e alimentos de consumo usual, como chips, por exemplo, além de orientações sobre a quantidade de óleo que deve ser utilizada para a preparação das refeições.

Para testar a técnica, Flávia Micali decidiu trabalhar com um grupo reduzido de voluntárias. Inicialmente, o instrumento foi validado por 15 mulheres, sendo seis eutróficas (com Índice de Massa Corporal considerado normal), quatro obesas e cinco nutricionistas. Elas participaram de grupos focais para testar a eficácia das imagens. Em sequência, o instrumento foi usado em oficinas de orientação nutricional, das quais participaram 33 mulheres, sendo 18 eutróficas e 15 obesas.

Depois de 30 e 60 dias do primeiro encontro com as participantes, elas foram submetidas a questionários para avaliar a memorização das imagens, assim como a efetiva mudança de peso ou de comportamento. De acordo com os resultados obtidos, as mulheres obesas memorizaram mais as mensagens. “Elas relataram que mudaram a alimentação. Não houve uma mudança significativa no peso, mas observamos que, depois de 30 dias, 60% das obseas e 44% das eutróficas perderam peso. Na segunda avaliação, 44,4% das obesas mantiveram a perda de peso e 25% das eutróficas”, detalha a pesquisadora.

Para a orientadora Rosa Wanda Diez Garcia, a pesquisa representa ganhos científicos e também para políticas públicas do setor. No caso da academia, como a professora ressalta, é inovador por avaliar o tempo de duração da memória da imagem. “É até comum vermos esse tipo de imagem em programas de TV, mas nunca havia sido avaliada científicamente a eficácia na orientação alimentar”, comenta. Outro aspecto importante é o fato de a investigação ter se erguido a partir dos problemas da população brasileira e ser de fácil aplicação.

Também sob orientação de Rosa Garcia, o instrumento imagético agora é detalhado na tese de doutorado de Flávia. O novo objetivo é investigar a fundo o quanto as mudanças na alimentação influem diretamente na perda de peso e qual o poder da memória nesse processo. “Queremos trazer um benefício para a sociedade. Percebemos que tem mesmo o potencial de orientação alimentar e nutricional”, conclui Flávia.

FAÇA AS CONTAS

Caso o consumo ultrapasse a necessidade diária de energia…

» Duas caixinhas de suco (250 ml) todos os dias, ao longo de um ano, equivalem ao consumo de 22 quilos de açúcar ao fim de um ano.

» A ingestão diária de duas latas de refrigerante pode representar um ganho de 11 quilos ao fim de um ano.

» Comer um pouco de doce por dia, tipo um brigadeiro e três biscoitos doces recheados ou um pedaço de torta doce e um chocolate, poderá significar 20 quilos a mais ao fim de um ano.

» Um pacote grande (170g) de salgadinho tipo chips equivale, em calorias, a um prato de comida saudável acompanhado de um copo de suco natural de laranja e uma taça de salada de frutas.

» Um pacote de pipoca industrializada (microondas) equivale, em calorias, ao consumo de dois pães francês e meio.

» Um pedaço pequeno de bolo de chocolate com recheio e cobertura equivale, em calorias, a cinco porções de frutas.

» Uma coxinha (tamanho grande) equivale, em calorias, a um sanduíche natural de pão integral (que contém queijo branco, peito de peru, cenoura, beterraba, alface e rúcula) acompanhado de um copo de suco natural de laranja.

» O pão de queijo tem 10 vezes mais gordura (10g), e a coxinha tem 13 vezes mais gordura (13g) que o pão francês.

» Um prato de comida com feijão, verduras, legumes e uma carne grelhada tem a mesma quantidade de gordura que uma fatia grande de pizza de muçarela, ou seja, 12g de gordura.

» O ideal é que se utilize pouco óleo para preparar os alimentos, pois, ao refogar uma cebola em uma panela contendo grande quantidade de óleo ou refogar a mesma quantidade de cebola em uma panela contendo pouco óleo, será possível perceber que ambas as cebolas ficam refogadas e têm a mesma aparência. Porém, a cebola que foi refogada em muito óleo vai agregar muito mais gordura aos alimentos que forem preparados ali.

» Uma taça de sundae (sorvete) tem 26g de gordura, ou seja, tem mais gordura que um prato de comida saudável.

 

 



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