CAMISINHA PARA TODOS


08/07/2008

A realidade do sexo precoce levou o Ministério da Saúde a criar um projeto que colocará máquinas de distribuição gratuita de preservativos nas escolas públicas a partir de 2009. Tal iniciativa despertou a atenção da sociedade para a delicada relação entre adolescentes e sexualidade. Pais e educadores se perguntam até que ponto a garotada - com hormônios em ebulição - está preparada para tamanha liberdade e se a facilidade em obter o preservativo estimularia ainda mais uma iniciação sexual prematura. Na década de 1980, 13% das meninas e 35% dos meninos perdiam a virgindade antes dos 15 anos. No começo dos anos 2000, os números saltaram para 32% e 47%, respectivamente. O anúncio da instalação dos equipamentos foi feito pelo ministro José Gomes Temporão durante o 7o Congresso Brasileiro de Prevenção a DST/Aids, em Florianópolis. Com a máquina, os estudantes ganharão autonomia na retirada das camisinhas, diferentemente do que acontece hoje em 10% das instituições públicas que já distribuem nove preservativos por mês a cada aluno sob o controle de um coordenador, dentro do projeto piloto Saúde e Prevenção nas Escolas. Um estudo do Ministério com 102 mil alunos, de idades entre 13 e 24 anos, revelou que 47% deles já têm vida sexual e 9,7% não têm dinheiro para comprar camisinha. O que se questiona é se a ausência de preservativo contém a libido de alguém. "Quem tem vontade faz. Não há falta de camisinha que impeça", diz o psicólogo Ari Rehfeld, professor de psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP). "É melhor que a proteção esteja disponível", diz o especialista. "Nas escolas e em casa. Os pais deveriam colocar o preservativo para os filhos na lista de supermercado." Rehfeld afirma que, do ponto de vista emocional, o acesso torna a descoberta da sexualidade um processo mais natural e saudável. Um dos mitos que se criaram sobre as máquinas é que elas seriam motivo de constrangimento. Há o medo de que as meninas sejam consideradas "fáceis" e que os garotos tímidos virem alvo de piadas do tipo "você não sai com ninguém, não precisa de camisinha". Bobagem, diz Rehfeld. "Eles já compram em locais públicos." O estudante Leonardo Del Paggio, 16 anos, confirma a teoria do psicólogo. "Nem eu nem meus amigos temos vergonha de comprar. Tem em qualquer vendinha e não acho caro. Mas se tivesse de graça na escola todo mundo pegaria, com certeza", diz Leo, que estuda em um colégio particular de um bairro nobre de São Paulo. O que parece natural para os adolescentes, não convence totalmente os pais. Alguns se sentem divididos entre a tranqüilidade e a aflição com o novo projeto. É a angústia que sente a mãe de Leonardo, a comerciante Ângela Del Paggio, 47 anos. "Sou a favor do projeto, pois é um caminho para evitar gravidez e doenças, mas, ao mesmo tempo, tenho receio. Para meu menino mais novo, de dez anos, acho cedo demais saber que isso existe na escola. Mesmo que ele não tenha permissão para retirar a camisinha, vejo como um estímulo à iniciação sexual precoce", afirma a comerciante. A psiquiatra Ivete Gattás, da Unidade de Psiquiatria da Infância e da Adolescência da Universidade Federal de São Paulo, entende o sentimento de Ângela. Apenas disponibilizar o preservativo não educa. "A novidade deve vir acompanhada de uma orientação, que mostre limites e riscos." Ivete ressalta que há avanços na educação sexual, mas ela continua falha. "Ainda se mostra pouco ao jovem como ele pode buscar o prazer e conhecer seu próprio corpo." Com o apoio do Programa Municipal de DST/Aids, quatro escolas de Itaquaquecetuba, na Grande São Paulo, distribuem camisinhas desde 2004. Elas se tornaram um bom exemplo em orientação sexual. "Damos o preservativo, mas pais e alunos participam todos os meses de palestras de médicos e especialistas sobre sexualidade", explica a coordenadora do programa, Lucille Soares. O resultado é positivo: o número de casos de gravidez indesejada caiu mais de 50%. A máquina de distribuição de camisinhas foi desenvolvida por alunos do Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet), de Santa Catarina. O projeto, escolhido no ano passado num concurso, lembra um caixa eletrônico e tem capacidade para 600 preservativos, explica Najara dos Anjos, um dos membros da equipe. "As cores claras e o design jovial é para que os adolescentes se identifiquem", diz Najara. O equipamento de tecnologia nacional será fabricado por cerca de R$ 400.



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